Cela

“O solitário desde seu penhasco rende à divindade da religião, sem ruído de palavras, um público testemunho não menos brilhante que os pregadores do Evangelho” (Vida Solitária-Be.Pallau).

Este capítulo sempre foi considerado o mais importante de toda a Regra, já que “a vida interior constitui a essência da vocação carmelitana” (Frei Telésforo Maria). “Este capítulo de permanência na cela é de suma importância porque nele aparece evidente o espírito primitivo da Ordem.” (Frei João Brenninger) “Este preceito da Regra, de fato, é o preceito central que comanda todos os outros.” (Frei Jerônimo da Mãe de Deus)

O fim de todo o monge, independente da Regra que siga, segundo os Santos Padres, é a perfeição do coração: que significa uma contínua e ininterrupta perseverança de oração e, quando é dado à fragilidade humana, visa alcançar a inalterável tranquilidade de alma e a pureza perpétua. A cela nos isola de tudo. S. João da Cruz afirma que, para rezar, é necessário esse isolamento: “Querendo Nosso Senhor confirmar isso mesmo e deixar-nos o exemplo, se bem que, sendo Ele a própria fonte inviolável de santidade, não carece de ajuda externa de afastamento e do benefício da solidão para adquiri-la (pois não podia a plenitude da pureza manchar-se com nenhuma sordidez das multidões, ou contaminar-se com o convívio humano Aquele que purifica e santifica tudo o que está manchado), afastou-se para um monte para rezar sozinho (Mt 14,23), instruindo-nos assim com o exemplo do seu isolamento para que, se quisermos nós também rezar a Deus com um coração puro e íntegro, nos afastemos com Ele da agitação e confusão das outras pessoas.”

O que significa permanecer? – Este verbo, muito presente no evangelho de S. João indica uma continuidade, uma perseverança da vontade naquele objeto. Esta ordem: Permaneça na cela (Maneat) deve estar muito bem gravada em nosso coração, pois, a grande tentação que enfrentamos todo momento é de sair, de se dissipar, até achando que está fazendo o bem. Diziam os Santos Padres do deserto: “Esforçai-vos ao máximo no ofício, em vossa cela, perseverai na oração com compunção, atenção e lágrimas contínuas...” “Sentados em vossas celas, lembrai-vos de Deus, elevai vosso espírito acima de todas as coisas e prostrai-vos em silêncio diante de Deus, derramai a seus pés todos os sentimentos (toda a disposição) de vosso coração, aderindo a ele pelo amor e caridade.” “Aprisionado numa cela tranqüila e escura, ele já não será dividido e diversificado, por assim dizer, pela vista e pelo olhar. Assim, querendo ou não, o espírito vai parcialmente acalmar-se e recolher-se em si mesmo.” “Senta-te em tua cela, como te foi dito, e ela te ensinarás todas as coisas. O resto tu aprenderás, com a ajuda de Deus, praticando a guarda do espírito e retendo Jesus em teu coração.” “Feche a porta da cela ao corpo, a porta dos lábios às palavras, a porta interior aos espíritos.” São Basílio, na sua Constituição para os Monges, diz que devemos voltar para a cela, como a pomba inocente que, não encontrando onde pousar, retornou para a Arca.

São Bernardo comenta que a cela é a oficina de todos os bens e que não é à toa que seu nome pareça tanto com o céu (cella-cælum), pois, ela já é um começo da vida do céu. “De dia, quer dizer, na alegria, de noite, na tribulação” (Beato João Soreth) Em todos os momentos devemos procurar manter uma atenção amorosa em Deus. “É nossa obrigação amar a Deus com todas as nossas forças e com a ocupação contínua nEle. Este é o verdadeiro espírito de nossos Santos Padres”. (João de São Sansão) “Que todos os que fazem votos segundo a nossa Regra tenham bem presente que coisa haveis prometido: Eu prometi solenemente viver segundo uma Regra que me ordena a oração ininterrupta.” (Ven. Frei João de Jesus Maria) Esta obrigação da cela, diz Santa Teresa, “é a mais importante de todas e, fazendo o possível para melhor observá-la, não deixaremos de observar também o jejum, a disciplina e o silêncio que a Regra nos pede.” (Caminho IV,2) São Macário diz: “um monge que fica sentado em sua cela, precisa concentrar em si o pensamento, longe de toda preocupação do mundo. Que ele não a deixe vacilar nas vaidades deste século, mas que tenha um único objetivo colocar o pensamento só em Deus, persistindo nele em todos os momentos, sem nenhum outro cuidado; e que não deixe nada de terreno entrar tumultuosamente em seu coração... mas que esteja, tanto no espírito quanto em todos os seus sentidos, na presença de Deus...” 


Clausura

No que toca à clausura, nos regemos até então segundo o que diz a Instrução sobre a vida contemplativa e a clausura das monjas, Verbi Sponsa: "Os mosteiros de monjas segundo a venerável tradição monástica, (63) que se exprime em várias formas de vida contemplativa, quando se dedicam integralmente ao culto divino, com uma vida de isolamento dentro dos muros do mosteiro, observam a clausura papal; se associam à vida contemplativa alguma atividade a favor do povo de Deus ou praticam formas mais amplas de hospitalidade, de acordo com a tradição da Ordem, então a sua clausura é definida nas Constituições. (64) Cada mosteiro ou Congregação monástica segue a clausura papal ou a define nas Constituições, de acordo com a própria índole". (Verbi Sponsa Parte II Nº 13)

Vivemos o estilo de clausura monástica como prescreve o texto acima, seguindo o modelo beneditino e o dos antigos mosteiros. Por exemplo, não fazemos distinção entre monjas externas e internas, tudo depende da decisão da Superiora e das exigências do momento. É uma relação de ‘a monja com sua mãe espiritual’, como bem definiam os Padres do Deserto. Uma relação interpessoal, visando o caminho de cada alma e o bem da comunidade como um todo.

Em alguns casos admitimos o acesso ao recinto da clausura para algumas formações, aprendizados de trabalhos, ou serviços prestados ao mosteiro. Usufruímos, porém desta ‘liberdade’ com a discrição que nos pede nossa Regra Carmelitana, e nos movemos dentro dos limites dos documentos eclesiais e das sãs tradições monásticas, como alude à mesma Igreja.


Léctio Divina

A Lectio Divina vem do latim e tem como significado, “leitura divina”, é um alimento necessário para a nossa vida espiritual. A partir desta oração, conscientes do plano de Deus e a sua vontade, pode-se produzir os frutos espirituais necessários para a salvação. A Lectio Divina é deixar-se envolver pelo plano da Salvação de Deus. Os princípios da Lectio Divina foram expressos por volta do ano 220 e praticados por monges católicos, especialmente as regras monásticas dos santos: Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento. Os primeiros Carmelitas apenas tinham a Sagrada Escritura como livro em suas celas, que muitas vezes liam de joelhos! Santa Terezinha do Menino Jesus dizia, em período de aridez espiritual, que quando os livros espirituais não lhe diziam mais nada, ela busca no Evangelho o alimento de sua alma.

Termos a prática da Lectio Divina, verdadeira oração da monja, é basearmos nossa espiritualidade não em devoções piegas e superficiais, mas fundamentarmos nossa vida espiritual na verdadeira Liturgia e no Logos, o Verbo feito Carne.

 

Capítulo

“Nos Domingos, ou em outros dias, quando necessário, tratareis da conservação da ordem, ocasião em que, também, mediante a caridade, sejam corrigidos os excessos e culpas em que os irmãos tiverem incorrido.”

Sábia a Regra, quando não deixa no esquecimento o Capítulo semanal, onde se afervora a Comunidade na disciplina monástica e não se deixa perder o fim para o qual os juntou ali o Senhor, no dizer de Santa Teresa d’Ávila.

O zelo pela conservação da Ordem, ou seja, que não se comece a decair na observância regular, conseqüentemente por si já resolve o caso da ‘salvação’ das almas, onde é aplicado os ‘méritos’ da consagração de cada um. E para tal acontecer com veracidade, é mister a correção fraterna, donde provém os futuros abusos e faltas de relaxação nas Ordens.

Na vida fraterna, os erros e fraquezas humanas são inevitáveis, por isso, com espírito misericordioso e humilde devemos reconhecer nossas faltas e ajudar os irmãos no caminho da virtude. A humildade, o diálogo e a transparência são fundamentais para uma boa convivência fraterna.

Nosso Senhor deixou-nos a regra de ouro (Mt 7,12), onde ensina-nos o agir cristão autêntico. Antes de querer corrigir as faltas do próximo precisamos analisar nossa conduta para não fazermos um juízo precipitado, querendo tirar o ‘cisco do olho do nosso irmão quando temos uma trave no nosso’ (Mt 7,5; e cf. Mt 5, 21-22). No entanto quando vemos que a alma de um irmão corre grave perigo, e que o mesmo não consegue enxergar isso sozinho, temos o dever de procurar ajudá-lo e corrigi-lo.

Aquele que é corrigido, mesmo que seja injustamente, deve saber sujeitar-se humildemente “à vontade de todos, sem se preocupar de saber quem fala, sendo o superior, um inferior ou igual, aceite tudo por bem, deleitando-se apenas no desprezo de si mesmo e na glória do Senhor” (Im.C).


 Trabalho

“Deveis também fazer algum trabalho para que o Diabo vos encontre sempre ocupados e não aproveite de vossa ociosidade para entrar em vossas almas. Para isso, tendes o ensino e o exemplo do Apóstolo São Paulo, por cuja boca falava Cristo, que foi colocado por Deus como pregador e doutor das gentes na fé e na verdade, a quem, se seguirdes os passos, não podeis errar: ‘Em trabalho e fadiga, diz ele, estivemos entre vós, trabalhando noite e dia, para não vos sermos pesados; não porque precisávamos, mas para nós mesmos vos darmos um exemplo a imitar. De fato, quando estivemos entre vós, demos esta ordem: quem não quiser trabalhar, não coma. Ouvimos, de fato, que entre vós, alguns andam inquietos, sem trabalhar. A estes admoestamos e ordenamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando em silêncio, comam o seu pão. Este caminho é bom e santo, caminhai por ele.” 

No evangelho (Lc 10), encontramos um exemplo interessante da vida cenobítica (representada por Marta) e da vida eremítica (representada por Maria). Geralmente, se interpreta a figura de Marta por representante da vida apostólica, mas ela não tinha o ministério da pregação. Seu ofício era cuidar da casa e servir como autêntica cenobita ativa. Maria, porém é o protótipo da contemplativa solitária que já não tem outro ofício, na expressão de São João da Cruz... Só amar e permanecer na presença do Senhor. Isso é preguiça? De forma alguma, é sim, a melhor parte que não lhe será tirada... Porém, isso não significa que o contemplativo não deve trabalhar, mas sim que ponha a primazia na oração. O trabalho serve para nos livrar da ociosidade e equilibrar nossa rotina, como orienta a nossa Regra. Ajuda a manter a saúde do corpo e se torna uma ocasião de sacrifício ofertado a Deus. 

Segundo o ensinamento dos Padres do Deserto: “Há cinco obras que honram a Deus, pelas quais devem passar, dia e noite, o que é noviço em hesíquia: a oração, isto é, a lembrança do Senhor Jesus Cristo introduzida ininterruptamente no coração, sem nenhum outro pensamento ou imaginação. Isso se obtém por uma temperança geral na alimentação, no sono, nas sensações, exercitadas na cela, com humildade muito sincera. Depois, a salmodia, a leitura do saltério, do Apóstolo, dos Evangelhos, das obras dos Santos Padres, principalmente as que se referem à oração e à sobriedade; a lembrança dolorosa dos pecados no coração, a meditação do Juízo, da morte, do castigo e da recompensa, etc. e o trabalho manual, para refrear a acédia.” Um irmão perguntou ao abade Agatão: “Abade, dize-me o que é melhor: o penoso trabalho do corpo ou a guarda de seu interior?” Agatão respondeu: “O homem é semelhante a uma árvore: O trabalho do corpo, são as folhas; a guarda de seu espírito, são os frutos. Está escrito: ‘toda árvore que não produz bons frutos será cortada e lançada ao fogo’. Dai se conclui claramente que todo o nosso esforço deve ter por objetivo os frutos, ou seja, a guarda do espírito. Assim, o trabalho manual é, segundo a tradição monástica, elemento essencial para se aperfeiçoar o espírito. Ainda mais que, através dele, imitamos a vida de Jesus, Maria e José em Nazaré, que é a mais perfeita vida. 

Procuramos viver o melhor possível da Providência, contribuindo, todavia com nosso trabalho manual, como costura, velas, terços e escapulários, bem como o cultivo próprio de hortas e animais para o fornecimento de leite e ovos. Também está previsto o trabalho mais intelectual como tradução de livros e formatação dos mesmos, assim como trabalhos de desenho no computador, etc. Nossos trabalhos não recebem um preço, são oferecidos mediante contribuições espontâneas.