Sagrada Liturgia

Santa Missa

 Oratorium construatur in medio cellularum: ubi mane per singulos dies ad audienda missarum solemnia convenire debeatis.

 A Eucaristia é o centro da vida do Mosteiro. Em torno do oratório são construídas as celas, como os planetas em torno do sol. Este é um aspecto peculiar de nossa Regra: a Missa Diária: Todos os dias deveis vos reunir para a Missa. A Missa deve ser pela manhã, pois Jesus é o Sol nascente e cada dia é uma nova ressurreição. Daí o significado de participarmos da missa com a capa branca, que representa o anúncio de que somos Filhos da Luz, batizados em Cristo e ressuscitados com Ele. (Col. 3) Comungar todos os dias, significa participar deste Pão nosso de cada dia e buscar esta vida Divina que nos é transmitida pelo Sacramento. “Quem come a minha carne permanece em mim e eu nele.” (Jo 6,56) Nossa piedade Eucarística se manifesta nesta comunhão, procurando tornar este momento o mais sagrado e importante do nosso dia. É comendo este Pão Vivo que temos força para continuar nossa caminhada de subida desta Montanha espiritual como aconteceu com nosso Pai Santo Elias. (I Rs. 19,8) A nossa espiritualidade deve haurir nesta Fonte Eucarística o manancial inesgotável de vida e de Amor. A Eucaristia é o Fruto bendito da Virgem que comemos como recompensa de nossa vitória contra o pecado: “Ao vencedor darei de comer (do fruto) da árvore da vida, que se acha no paraíso de Deus.” (Ap. 2,7) Este é o verdadeiro fruto da árvore da vida (cruz) plantada no meio do jardim místico do Carmelo. É por isso que no nosso escudo além da cruz em cima do monte, como no Carmelo Descalço, inserimos a Sagrada Hóstia no centro da cruz, pois, Jesus Eucarístico é o fruto desta árvore, o Deus-conosco, nosso maná celestial de cada dia.

 

Ofício Divino

 Sobre o Coro e o Ofício Divino, como bem disse o Sumo Pontífice Bento XVI, na Abadia de Heiligenkreuz: “Contudo, na vida dos monges a oração tem uma especial importância: é o centro da sua tarefa profissional. Eles, de fato, exercem a profissão do orante. Na época dos Padres da Igreja, a vida monástica era qualificada como vida à maneira dos anjos. Ao mesmo tempo, o officium dos consagrados é também um serviço sagrado aos homens e um testemunho para eles. Cada homem tem no íntimo do seu coração, consciente ou inconscientemente, a nostalgia de uma satisfação definitiva, da máxima felicidade, portanto, no fundo a nostalgia de Deus”.

 Toda nossa Liturgia se celebra sob a Forma Extraordinária, com o Ofício e Missal próprio do Carmelo. Mantemos o uso do canto gregoriano e da língua latina como meio de expressar melhor os valores monásticos contidos no Carmelo Primitivo, e que se tornam a base para a construção de nossa vida

 A Regra Primitiva determina que recitemos todas as Horas do Ofício Divino, como já o ensinava a Instituição dos Primeiros Monges: “Desde esse tempo se reuniam sempre estes religiosos nessa Capela (que construíram em honra da Mãe de Deus) a encomendar-se a essa Virgem e a rezar todos os dias as sete horas canônicas a esta Virgem e a seu Filho, com fervorosas orações, súplicas e louvores. Na Capela se reuniam para fazerem com simplicidade as exortações e mútuas instruções espirituais e para estudar o modo de salvar a almas” (Cap.XXXVI).

Todavia, guardando ao mesmo tempo o espírito eremítico e solitário do Carmelo, nos dias comuns da semana se reúnem os eremitas apenas três vezes por dia, recitando as Horas Menores na solidão da Cela, fazendo menção também ao Venerável Livro onde diz que antes da construção do Oratório em Honra da Virgem, ainda no tempo de Nosso Pai Santo Elias, “ele e seus discípulos saiam três vezes cada dia de suas covas e se reuniam muito devotos no oratório, não para darem juntos alimento ao corpo nem para executar outras ocupações materiais, mas para pedir misericórdia ao Criador de todas as coisas, e honrar-lhe com ladainhas e orações e para repetir cada um deles com o Profeta Davi: Pela tarde, de manhã e ao meio-dia lamentarei e gemerei; e ele ouvirá minha voz (Sl LIV, 18); (Cap.XIX).

O Ofício Divino é a oração da Igreja, o sacrifício de louvor mais sublime depois do Santo Sacrifício da Missa. Por isso mesmo chamado ‘Divino’, pois não é uma oração pessoal onde podem entrar tantas motivações humanas, com o que deixaria de ser Divino, mas louvamos a Deus com suas próprias palavras.

É também com muita justa razão chamado de ‘Ofício’, pois assim como todo cristão tem um ofício a cumprir em sua vida pela subsistência e em obediência à lei divina que o manda trabalhar, os religiosos cumprem o seu Ofício na recitação integral da Liturgia dos Salmos, Hinos e Orações, compostas pela Igreja todo ele impregnado da Sagrada Escritura, não só em benefício próprio e sim por toda a Santa Igreja e toda a humanidade criada e remida pelo Filho de Deus. Assim que sua ‘obrigação’ primordial é esse Divino Ofício, e somente o que ‘sobra’ é empregado em trabalho manual, que a seu tempo a Santa Regra também especifica a sua importância na vida do monge.

Como nossa Regra é toda ela Bíblica, é por isso mesmo plena de misericórdia às fragilidades humanas, daí a sábia e magnânima permissão de trocar os Salmos pela recitação do Pai-Nosso, para aqueles que os não souberem ou estiverem impedidos de os rezarem por alguma justa causa.

Precisamos, porém, vigiar para rezarmos os salmos com atenção, pois, a quantidade é excelente na salmodia, quando acompanha a perseverança e atenção. Os demônios surpreendem de diversas maneiras os sentidos da alma, fazendo de tudo para nos afrouxar e nos entediar, e também para desperdiçar os frutos da oração Mas resisti corajosamente e não dai preferência à comodidade do corpo à custa da alma abandonando-vos a pensar apenas no cumprimento da Hora; os demônios não suportarão a vossa paciência nem o vigor da vossa resolução.

 Hi qui litteras noverunt & legere Psalmos per singulas horas eos dicant.

 As horas e os hinos são tradições eclesiásticas que nos foram transmitidas, visam a glorificação de Deus através do culto que lhe é devido na liturgia. As horas canônicas são o complemento da Missa para a santificação de cada dia. A celebração do ano litúrgico nos insere profundamente no mistério de Cristo e de sua Igreja (os Santos). Entretanto, na tradição monástica mais antiga, a salmodia é considerada uma parte da vida comunitária. Os eremitas mais solitários já não se dedicavam aos hinos e salmos. Este testemunho o comprova: “Os solitários da Cétia, por sua vez, não salmodiam, nem têm hinos; só fazem trabalho manual e meditação solitária.” (séc. V). “A salmodia frequente é a ocupação dos ativos, por causa do cansaço que ela impõe; mas não dos hesicastas, que se contentam de orar a Deus, só em seu coração, e de permanecer ao abrigo de qualquer pensamento...” Este argumento é muito freqüente nas citações dos antigos. É por isso que a Regra apresenta a possibilidade da salmodia na cela ou da recitação do Pai nosso, já que a tradição eremítica mais antiga se baseia na repetição de pequenas orações. Entretanto, parece que se incentiva a oração do Ofício em comum, pelo menos para “aqueles que sabem as letras”. Conforme antigas tradições, sabemos que os primitivos carmelitas latinos frequentavam o coro três vezes por dia. Devemos prestar atenção quando se diz: “aqueles que sabem letras”. Ter esse conhecimento, não significava buscar um estudo aprofundado (como ocorreu quando o Carmelo se tornou mendicante) ou um intelectualismo, mas simplesmente uma formação clerical (para os sacerdotes) ou um estudo que colaborasse para a vida de oração.