A ESSÊNCIA DA VOCAÇÃO EREMÍTICA 

É preciso encontrar nas Santas Escrituras uma fórmula que exprima o sentido da nossa vocação.

Sabemos que Deus estabeleceu a religião do antigo Pacto em meio a nuvens e trovoadas, fogo e terror. Nosso Pai Santo Elias, ao entrar na caverna, (I Rs. 19) foi introduzido na “noite dos sentidos” e depois, saindo, teve a revelação profética do que seria a graça da Nova Aliança: não mais trovões e tempestade, nem vento, nem fogo, mas uma branda viração. “Eis que virão dias, diz o Senhor, em que firmarei com o meu povo uma nova aliança e escreverei a minha lei nos seus corações.” (Jer. 31) Elias, servo de Moisés, segundo o Testamento antigo, se torna discípulo de Cristo, pela graça desse “batismo” que recebeu no Horeb. “Devo receber um batismo e como anseio para que isso logo aconteça.” (Lc. 12,50) De que batismo Jesus falava? Do batismo da sua morte, no qual Ele “passaria deste mundo para o Pai” (Jo. 13). Isto significa entrar nessa “caverna”, onde é aniquilado o ser-humano natural e “nascer de novo” segundo o espírito, o homem espiritual.

No evangelho, a instituição eclesial e o carisma eremítico estão representados pelas figuras de Pedro e João. O sacerdócio hierárquico e o religioso eremita são duas realidades que muitas vezes se conflituam. De fato, disse o Senhor: “eu não vim abolir a lei.” Daí fundou a instituição: “tu és Pedro”. Apesar de ser nova, a Igreja enquanto instituição, ainda traz o peso do Antigo Testamento, daí a palavra: “Pedra”. Necessária sim, porém, humana, terrena e provisória, por isso, disse a Pedro: “tu, porém, segue-me”. (Jo 21, 22), indicando aqui a idéia de desenvolvimento. Muito importante é Pedro, mas seu cargo não lhe permite inclinar-se sobre o peito do Senhor e descobrir a mística que vai além das realidades terrenas. João, por outro lado, representa o eremita, este ser humano livre, que já encontrou seu lugar na eternidade e, portanto, permanece estável, não precisa mudar mais: “que te importa que ele permaneça assim até que eu venha...” (Jo 21,22)

“Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia. (O mar aqui representa todo perigo e ameaça.) Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo. Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição. Então o que está assentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas. E o anjo me levou em espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, revestida da glória de Deus. Não vi nela, porém, templo algum, porque o Senhor Deus Pantocrator é o seu templo, e o Cordeiro. A cidade não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o Cordeiro.”

Eis a descrição da Cidade Santa que encontramos no Capítulo 21 do Apocalipse. Aqui estamos diante da figura celeste que é a imagem acabada da obra de Deus e o resumo da perfeição espiritual. Pode nos causar estranheza perceber que, apesar de tão linda, a cidade não tinha nenhum templo...  Ora, as leis, os cânones, as regras, os ritos, os sacramentos, tudo isso representa o Templo, a instituição. Há muitos homens dos nossos dias se cansaram da instituição e não suportam mais hierarquia nem dogmas , mas isso é, sem dúvida, necessário, apesar de ser passageiro, enquanto realidade terrena. Mesmo no Mosteiro, temos a presença da Instituição na disciplina monástica. Precisamos da Regra, dos ofícios litúrgicos, dos hábitos, mas não devemos considerar tudo isso nada além de simples “pedagogos”, na linguagem de S. Paulo, ou seja, de instrumentos que nos ensinam e que nos dão a direção, enquanto não temos a visão clara. Durante essa vida, ninguém pode ter a presunção de se dispensar destas coisas, mas no céu, tudo isso já não vai existir. Houve muitos “espirituais” na história que se tornaram doutores de erros e heresias por desprezarem a instituição e quererem ser João sem a devida reverência ou obediência a Pedro... Há também pessoas que, indo para o outro extremo, desejariam que a Instituição permanecesse no céu, já que a colocam no lugar de Deus, como aqueles judeus que se gloriavam: “é o templo do Senhor!” (Jer. 7,4)

Nosso Senhor Jesus Cristo, porém, precedido por esse homem livre e eremita, São João Batista, vem nos trazer a novidade que os estatutos de Moisés não podiam nos dar: o ser humano celeste. Em toda sua vida, especialmente na sua paixão, vemos esse seu desejo de aproximar a realidade terrena com o que é divino, mesmo encontrando a resistência de seus discípulos: “Teria ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não podeis suportar agora...” Somos ainda muito inseguros e presos por nossos aparatos humanos e não suportamos a perda e a humilhação. No entanto, para quem sinceramente deseja entender, é muito simples a doutrina de Jesus: “se não nascerdes de novo”... (Jo. 3) “se não renunciardes a tudo...” Ou: “Bem-aventurados os pobres de espírito”. Despojar-se interiormente e penetrar na solidão do nosso próprio ser como uma criança livre é a essência da espiritualidade cristã. O carisma eremítico não é senão essa própria espiritualidade vivida até as últimas conseqüências. O eremita não busca somente uma solidão externa, como buscava Jesus nas noites que passava nas montanhas rezando, mas é totalmente absorvido pela solidão, pois ela é o único consolo para quem está exilado, para quem suspira constantemente pelas coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. (Col. 3) Ele parte como a ave solitária, que se lança num vôo sem saber onde vai chegar. Seu único desejo é DEUS. Todas as coisas passaram. Agora, tudo é novo: Cristo nos introduziu no mistério de sua filiação divina!

Esta realidade passa a ser tão forte nele que já não há mais essa ruptura interna, essa divisão entre o sagrado e o profano, essa contradição causada pelo pecado, mas uma reconciliação total, a ponto de se poder dizer: “é Cristo que vive em mim.” Ou ainda: “Sou a Criatura que o Verbo de Deus desposou.”

É por isso que a oração propriamente eremítica não acontece senão na cela de seu próprio coração. “Quanto orares, entra no teu quarto e fecha a porta.” (Mt. 6,6) Introite in  cubilibus vestris (Sl 4, 5)  Introduxit me Rex in cellaria sua. (Cant. 1, 4) Sem oratório, sem sacrário, sem imagens (nem mesmo na mente), sem ornamentos, sem nenhum aparato institucional. Ali, ora o solitário, como o publicano conpungido, na secura e na simplicidade, com a repetição de palavras breves como Kyrie Jesu Christe, eleison (Senhor Jesus Cristo, misericórdia). Como a ave solitária no telhado (dos pensamentos elevados) soltando seus gemidos (Sl. 101).

Toda essa doutrina se encontra muito bem representada nos antigos ícones de Jesus crucificado. Estranhamos que neste Cristo morto, não há expressão de dor e sofrimento. “Cristo, tendo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá mais domínio sobre ele.” (Rom. 6,9) Sua face é meiga e serena. Seu corpo é todo humilde, pacífico, esvasiado. Suas mãos abertas mostram que Ele se oferece até o fim. Sua desnudez é total. Sem títulos, sem cargos, sem bens materiais ou espirituais, somente um imenso abandono. Ele é livre e simples. A morte, portanto, já não tem mais poder sobre Ele! Não há nele marcas do passado, mas somente uma dimensão de vitória, como que já manifestando a ressurreição.

A vocação eremítica tem, portanto, na Igreja uma dimensão profética insubistituível. Não se busca fazer algo por Ele, nem mesmo incrementar o Reino dEle, mas simplesmente, se identificar com Ele, sendo um sinal neste mundo apontando para o céu.

Aquele que é chamado a esta vida deve caminhar “de virtude em virtude” (Sl 83) subindo o monte santo (Sl. 23) até chegar neste estágio, em que as potências da alma estejam pacificadas e a vontade própria já não exista. Então, “no cume do Monte Carmelo”, ele se estabelece, sob a sombra da árvore da cruz e saboreia o fruto da “árvore da vida”. Encontramos, pois, nestas palavras do Cântico dos Cânticos a fórmula que expressa a vocação eremítica: “Sub umbra illius, quem desideraveram, sedi, et fructus eius dulcis gutturi meo.” (Ct. 3,2) -Sob a sombra daquele que eu desejava, me sentei (ou me estabeleci), e o seu fruto se tornou doce em minha boca.

 Fiat, Fiat!

Padre Prior Frei Tiago de S. José, ECarm