O Carmelo Primitivo

 Vida cenobítica

Em torno de 1207, o Prior, São Brocardo, visando organizar melhor a comunidade pediu que Santo Alberto lhes escrevesse uma Fórmula de Vida. A Regra é destinada a eremitas. Não é possível alguém viver a Regra Primitiva se não busca a vida eremítica. Gera, porém, muita confusão o fato de que o termo eremita é normalmente entendido como aquele que vive totalmente sozinho. Como pode um eremita viver em comunidade??? 

Primeiro devemos saber o que significa ser Monge: “O monge deve seu nome, em primeiro lugar, ao fato de ser só (monos), pois se abstém de mulher e renuncia ao mundo, por dentro e por fora: por fora, renunciando à matéria e às coisas do mundo; por dentro, renunciando às suas próprias representações, impedindo os pensamentos das preocupações mundanas. Em segundo lugar, é chamado de monge, porque ora a Deus com uma oração ininterrupta, para purificar o espírito dos pensamentos numerosos e contrários, para que seu espírito se torne monos, em si mesmo, e sozinho diante do verdadeiro Deus, permanecendo puro e íntegro diante de Deus.” Este é o conceito da palavra monge, expresso num comentário muito antigo. Entretanto, geralmente quando falamos em monge, queremos dizer cenobita, ou seja, aquele que vive junto com outros. Já a palavra: Anacoreta significa aquele que está fora da região, representando o monge isolado ou eremita no sentido estrito.

O termo Eremita significa, simplesmente habitante do eremo (deserto). Podemos, assim, diferenciar aquele que vive numa comunidade (Eremita-monge) ou como aquele que vive totalmente isolado (Eremita-anacoreta). Na Terra Santa havia muitas comunidades de eremitas, ou seja, Mosteiros em que cada um tinha uma laura ou ermida separada, mas que tinham um vínculo de comunhão entre si. Geralmente, tinham uma capela comum, um refeitório comum e alguns elementos de vida cenobítica (comunitária). Como valorizavam mais a solidão que a vida comunitária, preferiam se chamar eremitas e não monges. Portanto, os nossos irmãos que receberam a Regra eram eremitas, não porque vivessem isolados (como anacoretas), mas como eremitas-monges segundo o costume da Palestina. Por isso, é possível também a expressão: Monges-eremitas, muito usada no livro da Instituição.

Os Mosteiros encerram uma vida de intensa solidão, vivendo este grande ideal de: “Restaurar a Ordem do Grande Profeta Elias”!

Dessa forma, um ambiente muito eficaz e favorável para retiros, além da experiência vocacional que toma forma na identidade própria do carisma. Embora, localizados em lugares afastados das cidades, acabam sendo alvo preferido dos fiéis atraídos pela assistência dos Sacramentos. Acarretando um fluxo de vigoroso apostolado para as monjas mesmo sem saírem de sua clausura.


Vida Anacoreta

É doutrina muito confirmada na Igreja, aquela de que a solidão é necessária para se alcançar a união com Deus. Assim expressa S. João da Cruz: “a alma deverá viver na solidão antes de entrar neste estado de união, porque a alma que deseja Deus não acha consolo em nenhuma companhia e tudo causa nela mais desejo de solidão” (Cânt. Canção 35)

Quanto maior o grau de solidão, maior será a possibilidade da pessoa se tornar um contemplativo, ou um hesicasta (solitário) como dizem os gregos, querendo designar uma pessoa que foi introduzida na Hesichia, ou seja, na solidão externa e interna, para estar totalmente na presença de Deus. Frei Tomás de Jesus, citando vários doutores afirma que “a vida totalmente eremítica é o cume da vida religiosa”.

Entretanto, devemos entender que esta vida, orientada à vida celeste, se orienta sempre para a perfeição e a união com Deus. Todas as Regras monásticas são dirigidas a este fim. Isso, no entanto, não se atinge somente por esforço pessoal, mas, também, pela graça divina. Assim lemos no Livro da Instituição que diz: “Esta vida de perfeição religiosa encerra dois fins: um, podemos alcançar com nossos esforços. Este fim consiste em oferecer a Deus o coração limpo de toda a atual mancha de pecado. Conseguimos este fim quando estamos em Carit, ou seja: quando nos achamos escondidos na fonte da caridade, como disse o Senhor a Elias: Te esconderás na Torrente de Carit. O outro fim da vida santa eremítica é dom totalmente gratuito de Deus e que Ele comunica à alma. Consiste em que, não só depois da morte, senão ainda nesta vida mortal, possa saborear no afeto do amor e no gozo da luz do entendimento, algo sobrenatural do poder da Presença de Deus e do deleite da Eterna Glória. Isto significa beber da torrente da delícia Divina (contemplação). Deus prometeu este fim a Elias ao dizer-lhe: E aí beberás da Torrente.” Para chegar a este estado, a alma deve deixar tudo, e desprezar a vida presente, a fim de não possuir, no coração, nada além de Deus...

São João da Cruz explica que “na transformação que a alma tem nesta vida, a mesma aspiração de Deus passa para a alma e da alma para Deus, com muita frequência e com sutilíssimo deleite de amor, como se estivesse na outra vida. Isto quis dizer São Paulo quando disse: ‘porquanto sois filhos de Deus, enviou Deus em vossos corações o espírito de seu Filho, clamando ao Pai’. Assim, os beatíficos na outra vida e os perfeitos nesta.” (Cânt. Canção 39) Descreveu também, Santa Teresa, de forma muito detalhada, o estado destas almas, no Caminho de Perfeição, capítulo VII: “Dir-se-ia que não vivem no mundo. Nada querem ouvir, nem ver, senão gozar em seu Deus. Nada os penaliza. Nada os pode atingir. Ficam tão inebriados e absortos que nem pensam em desejar outra coisa”.

São João Clímaco explicava desta forma: “A primeira idade do crescimento monástico consiste em sossegar as paixões: é a tarefa dos principiantes. O segundo degrau no escalão de crescimento, que transforma um ser espiritual ainda adolescente em jovem, é a assiduidade à salmodia. Uma vez enfraquecidas e mitigadas as paixões, a salmodia se torna doce ao ser recitada, ganha preço diante de Deus, pois não é possível ‘cantar ao Senhor numa terra estranha’, isto é, num coração apegado às paixões. É nisso que se reconhecem os que progridem. O terceiro degrau no escalão de crescimento que faz o jovem passar à maturidade espiritual é a perseverança na oração: distintivo dos que progrediram. No ponto em que estamos, há entre a salmodia e a oração a mesma diferença que há entre um homem maduro e um jovem. Segue-se o quarto degrau no escalão de crescimento espiritual, o do ancião, com cabelos brancos: é o olhar fixo e imóvel da contemplação, o atributo dos perfeitos. O itinerário está terminado; o alto da escada foi atingido.”

Enfim, vivendo mais no céu que na terra, esta pessoa adquire o dom da oração contínua. Quando uma alma chega neste estágio, poderá dizer como no Cântico dos Cânticos: ‘Durmo, mas meu coração vela’. (Ct. 5,2) ou também: “não acordeis a esposa até que ela queira.” (Ct. 8,4)

O Mosteiro comporta eremitérios que podem residir nos ermos, próximos do Mosteiro, para assistência da Santa Missa e dos Sacramentos. Em cada Eremitério, reside apenas uma Monja de Votos. Todavia, podem ter vários eremitérios em um mesmo terreno, porém sem terem vida comunitária. As anacoretas podem participar da vida da comunidade nas grandes solenidades, ou optarem por uma reclusão perpétua.

As monjas podem viver por toda a vida tomando parte na vida comunitária como orações, formação, trabalho e recreio, ou por um período específico, conforme for discernida a Vontade de Deus para cada uma.

A vida anacoreta, ou seja, totalmente solitária, é permitida somente após a Profissão Perpétua. Excepcionalmente, pode ser concedida a permissão após a Profissão Temporária da Monja, mas neste caso, a mesma será acompanhada de modo especial pela Prioresa, ou, se não for possível por esta, pela Irmã Professa responsável pelo eremitério.

Aqui se procura ter um cioso cuidado em que esta eleição não seja fruto de caprichos humanos, e sim de um profundo amadurecimento em direção espiritual juntamente com a Prioresa e a Mestra, visando um caminho maduro na fé e na vocação, evitando-se o grande perigo para a vida da monja da instabilidade entre um estilo de vida e outro.

Isso não implica que nunca se possa passar da vida Anacoreta à Cenobítica e vice-versa, mas com o devido discernimento, vindo pela obediência que tudo guia para Deus.

Na vida solitária a monja é convidada a seguir os mesmos horários que a Comunidade, tendo, porém a flexibilidade de seguir seu próprio horário, desde que conte com a benção da obediência, uma vez que a vida anacoreta está para além do tempo.